Julius Stranger: o dono do mundo – Temporada Final – Ep3

Já havia 30 dias que chovia dinheiro.
Um dólar, agora, sem valor. Governos por todo o mundo organizaram equipes que divididas juntavam e queimavam a grana como podiam. Movimentos ecológicos até tentaram protestar no começo, afinal a fumaça das fogueiras, as cinzas tomavam as cidades, mas, na falta de ideia melhor, ou capacidade em reciclar tudo aquilo desistiram.

Július já não parecia um ser humano, tomado pelo horror do fizera, virava noites tentando acabar com tudo aquilo. Não tinha coragem de tentar mandar outra mensagem. Pensou em mandar um simples “pare” ou “não faça!”, mas a variável de consequência era tão absurda que desistiu.

Tentava revirar o passado em busca do momento exato em que tudo deu errado, mas, sem saber para onde olhar, estava perdido. Era tempo demais para ver. Estava, talvez pela primeira vez, perdido. Conforme prometera depois de sua “quase prisão”, manteve contato com o Presidente, mas mentiu, disse não saber o que estava acontecendo.

Afinal, ele mesmo fez aquilo?
Não conseguia entender como.
Parecia um pesadelo do qual não conseguia sair.
Continuaria a trabalhar, interrogando. Já até pensava em inventar uma máquina do tempo, chegou a tentar em um daqueles momentos em que se está tão cansado que o desespero domina as ações, mas, desistiu, ou caiu de cansaço, não lembra.

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Depois do sumiço de Cameron, a vida de Linda virou de cabeça para baixo. Via-se cercada por fantasmas, e não, não é figura de linguagem, ela literalmente ouvia sussurros de Cameron. Talvez fosse a menta aturdida, talvez fosse o arrependimento.

O fato, porém é que estava presa, sem perspectiva de uma sentença ou direito a defesa. O projeto era secreto, ela sabia disso quando entrou, então, oficialmente, nunca existiu. Se nunca existiu, como ela poderia ser condenada ou inocentada de algo? O governo pensava diferente. Então, até sabe Deus quando, ela estava condenada, talvez para sempre.

O sussurro em sua cabeça só dizia:
– Quero voltar. nada mais.
– Quero voltar.

Linda sempre foi inteligente e sabia que as pessoas não desapareciam simplesmente, Há motivos, há pistas pelo caminho, um caminho a ser seguido, mas esse não era o caso. Ela teria desafiado as leis da própria física. Sabia que as luzes vistas no final eram reminiscências da quarta-dimensão, era exatamente o que ela esperava que acontecesse, de certo modo, o experimento foi um sucesso, mas o desaparecimento de Cameron não fazia sentido. A física impedia o transporte de massa entre dimensões, estava completamente perdida.

Passos.
Passos mais próximos.
A porta se abre. Samus entra.

– Dra. Harrison?
– Se veio até aqui sabe que sou eu.
– Quero falar com você sobre o Book Back
– Já falei tudo que sabia para os abutres, não tenho mais nada.
– Li seu depoimento e algo faltou.
– O que é, mas seja rápido, tenho salão às 4.
– Você disse aos investigadores que esperava que aparições de outra dimensão fossem visíveis naquele momento, e que por isso não ficou impressionada com as luzes, isso está correto?
– Sim, sem novidades.
– Mas, de onde vieram as luzes, a ideia era criá-las ou reproduzi-las?
– Ora, virei Deus agora? Nem uma coisa, nem outra, o objetivo era espelhar.
– Não entendi.
– Quem é você mesmo?
– Samus Davidson, Engenheiro Senior da Nasa e sua melhor chance de sair daqui.

“Sair daqui?” Linda pensou. Será que haveria então uma chance. Eles deviam estar muito ferrados para procurá-la. Talvez fosse uma boa ideia colaborar, mas não muito.

– Em um microscópio, o que vemos? Coisas que sempre estiveram ali mas nosso olho não alcança, não criamos nada, simplesmente passamos a ver. Com meu experimento é o mesmo. As luzes que o senhor se refere estão aqui nesse momento e em todos os lugares, assim como milhares de outras coisas que não tive oportunidade de ver, mas estão lá, só é preciso a energia certa, o modo certo para fazê-los aparecer.
– Entendo. Seria possível massa passar entre dimensões?
– Sempre teorizei que não, mas como sabemos, ou Cameron junto com cada célula do corpo e do uniforme que vestia foi evaporado por uma força que desconhecemos, ou ele está nesse momento em outra dimensão, que aliás, de vez em quando, consigo ouvi-lo, mas nesse ponto, pode ser minha imaginação, posso estar ficando louca.

Samus analisa Linda. Pode ser a genialidade em pessoa. Pode estar realmente louca, mas o fato é que ele não pode discutir em pé de igualdade com ela, não faz ideia de como ela fez o que fez.

– A senhora tem interesse de sair dessa cela e voltar para o trabalho?
– É tudo o que mais quero. Mas, qual é o caso, posso saber?
– Saberá tudo em breve, vou providenciar sua saída.

A porta se fechou, Samus saiu e Linda ficou sozinha com seus pensamentos. O que poderia estar acontecendo a ponto “Deles” recorrerem a ela. Sabia que era esperta, mas comandava um projeto menor, algo que os grandões não entendiam e não davam valor e agora, isso.

Mais tarde naquele dia, ela andava pelos corredores e olhares julgadores dos demais. Podia quase ouvir os pensamentos:

– Assassina!

Não se importava, nunca se importou, sempre enfrentou barreiras para chegar até ali, homens fizeram muito mais do que ela e eram reconhecidos por muito menos, direita, esquerda, reto. Queria correr, ver a luz do dia, mas não estava nem livre nem solta. Era uma prisioneira, livre, optou por pensar assim.

Uma porta se abre, lá estava Samus e uma figura ao seu lado, não acreditou, era o Presidente.

– Senhora Harrison, muito prazer.

Ficou muda. Eles deviam estar muito ferradas.

– A senhora já foi atualizada dos acontecimentos?
– Não, senhor.

O presidente olha com reprovação para Samus.

– Vou ser direto. Está chovendo dinheiro e nós precisamos que isso pare.

Linda olhou com um misto de interrogação, humor, descrença.

– Desculpe, senhor Presidente, o senhor disse que está chovendo dinheiro?

Samus toma a palavra.

– Faz mais de 30 dias que começou a chover notas de um dólar incessantemente. Elas “nascem”, nem sei ao menos que termo usar, a 10 mil pés e caem como chuva. Fora isso, nada mudou, o clima é o mesmo, a chuva normal segue acontecendo.
– Entendo, por isso estou aqui, o senhor acredita que isso venha de outra dimensão.
– Está aqui por que não sabemos que caminho seguir, então, vamos seguir todos, e o seu, é um deles.

O Presidente volta a falar

– Senhora Harrison, se conseguir nos ajudar com isso, terá o perdão presidencial e uma carreira brilhante pela frente, será conhecida por seus feitos. e não por seus erros. Agora, preciso ir, boa sorte.
– Posso sair?
– Da cela, sim, das instalações, não.
– Que lugar é esse.
– É o lugar que deve ficar.

O Presidente vira as costas e sai pela porta lateral seguido por seu secretário e por um de seus seguranças.

– Então, Dra. O que precisa para começar a trabalhar.
– Da minha sala.
– Isso é impossível no momento, mas posso fazer a sua sala vir até você ainda hoje.
– Ok, ok. Onde vou trabalhar?
– Aqui. Terá todos os recursos que necessitar.
– Vou deixar que se atualize enquanto suas coisas chegam. Na pasta “123”, me perdoe a simplicidade, vai encontrar todas as pesquisas que fizemos até hoje. Todas as nossas tentativas, enfim, verá onde fracassamos para não perder tempo.
– Ok, ok.

Samus sai, a porta se fecha e linda fica um minuto incrédula.
– Chovendo dinheiro?

Parecia um filme de baixo orçamento ruim, mas estava de fato acontecendo.
Teria ela causado essa brecha? Aliás, era uma brecha?
Linda percorre as redes sociais e principais canais de notícias. Sentia falta disso, se ouvir o presidente falar sobre falta de dinheiro era estranho, ver a cena era ainda mais… A porta se abre, a primeira caixa de seu antigo escritório chega. Era hora de trabalhar.

 

Primeira Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2

Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6

Segunda Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4

Temporada Final:
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3


Julius Stranger: o dono do mundo – parte 4

Aquela mina tinha tanto ouro que era difícil acreditar que ninguém até então havia se dado conta da existência dela. Julius, havia adquirido a propriedade por um preço ínfimo, ninguém antes dava qualquer tipo de atenção para aquele deserto abandonado. Ninguém conseguia acreditar, poucos dólares haviam se transformado em uma das maiores fortunas já vistas.

Julius não era o mesmo homem que há pouco mais de 2 anos perdera o amor, que na verdade, nunca teve. Karen, ainda era lembrada, é verdade, mas como um sopro, uma lembrança que embala pensamentos em uma tarde chuvosa.

Mas, como Julius já antecipara, a “sorte” de encontrar ouro em lugar tão inóspito traria questionamentos, principalmente governamentais, trouxeram!

Em uma tarde de domingo diversos carros pretos, 4 no total, pararam na escada da nova mansão de Strange, vieram buscá-lo para depoimento em uma agência obscura. Julius já estava na escada com malas prontas, ao ver os agentes, simplesmente disse:

– Estou pronto.

Surpresos, confusos, nada disseram, ele entrou no carro e foi conduzido para um prédio no centro da da cidade, sem maiores explicações.

A sala em que foi colocada era ampla, fria, porém muito bem decorada com réplicas de quadros famosos, uma enorme mesa de escritório e algumas poltronas confortáveis. Julius sentou, e aguardou, 14 minutos depois, uma homem de meia idade, calvo, vestindo um terno barato e uma expressão séria foi direto ao se dirigir, ao que agora parecia, um investigado:

– Como você  sabia da localização de todo aquele ouro?
– Eu não sabia. Comprei o terreno para construir uma casa e um laboratório fora da cidade, como você sabe, eu sou um cientista. Precisava de espaço. Foi sorte.
– O senhor espera mesmo que acreditemos que encontrar todo aquele ouro, em um lugar isolado, longe da sua cidade natal, foi apenas um golpe de sorte?
– Eu não espero nada, essa é a verdade.
– Ok, vamos imaginar que isso seja a verdade. Como o senhor ficou sabendo desse rancho?
– Simplesmente entrei na internet e pesquisei um local com as características que queria, conforme já falei com o senhor. Sei que o senhor já invadiu meu computador e viu minhas buscas, sabe que isso é verdade.
– Nós não invadimos seu computador, não poderíamos fazer isso sem uma autorização.
– Claro, papai noel me contou isso ontem.
– Não estou gostando do seu tom. O senhor está aqui apenas para averiguação, ainda não é investigado por nada.
– Então posso ir embora?
– Assim que eu terminar minhas perguntas.
– Mas eu não devia ter direito a um advogado?
– Você acha que precisa de um?
– Sei que não.
– Vamos fazer assim, iremos retomar nossa conversa amanhã. Que tal eu lhe oferecer uma hospedagem aqui nas nossas instalações?
– Certo, já estou com as malas prontas.
– Mas como o senhor sabia?
– Foi um palpite.
– Mais um golpe de sorte?
– Pode-se dizer que sim.

Na manhã seguinte, ainda que tivesse uma noite agradável, um jantar refinado, Julius arrumou as malas e iria embora. Mais uma vez foi até a mesma  para “conversar” com a mesma pessoa.

As perguntas se repetiram, a insistência com o golpe de sorte, mas nada além disso, o agente sabia que não poderia manter Julius ali por mais tempo. Afinal, ter “sorte” não é contra a lei.

Julius foi para a sua nova casa, sentou-se em frente da sua tv, antiga, que não combinava com o ambiente, parecia mais uma peça retrô do que um equipamento que de fato funcionasse. Julius pegou uma espécie de controle remoto, digitou alguns números e ali, naquela tela, o agente apareceu, vestindo o mesmo terno barato, e com a mesma calvície brilhosa. Julius assistiu à cena e ficou tranquilo. Teria alguma paz.

Continua…