Qual é a cor do mundo? Parte 1

Luiza acordava sempre com uma sensação estranha. Pouco lembrava dos sonhos que tinha, mas sabia que sonhava, era estranho.

Vez ou outra sentia o calor, o frio, os medos que os sonhos lhe proporcionavam. Assim como sua mãe, era vidrada em astrologia, significado dos sonhos, sonhar com cobra, traição, sonho de sexta para sábado, acontecia de verdade. Sonhos de quinta para sexta, acontecia ao contrário.

Tudo isso Luiza acompanhava com curiosidade, mas o que ela não entendia era a alegria ou a tristeza intensa com que acordava em algumas manhãs. Não tinha um significado, na maioria das vezes nem lembrava do que tinha sonhado, mas os sentimentos eram intensos.

A partir dos 25 anos aquilo começou a tomar tal proporção que começou a refletir na sua vida real.

Vida real?

O que é vida real se perguntava Luiza.

Antes, tinha uma promissora carreira na área de medicina. Queria ser pediatra, depois, ainda mais interessada nos sonhos, voltou seus interesses para a psiquiatria.

Ela precisava de uma psiquiatra, pensava.

Um dia qualquer, como qualquer outro dia que amanhecia, tinha sol, ela acordou, mas algo tinha mudado, ou melhor, nada tinha mudado. Era estranho.

Não, nada tinha mudado.
Mas, tinha que ter mudado.
Ela ainda estava no sonho.

Ficou confusa. Pensou ainda que sonhava estar sonhando. Lembra da sensação de confusão se formando em sua mente.

A mãe lhe dá bom dia.
Ela responde.

Mas, como?
Sua mãe tinha morrido quando tinha 14. Acidente horrível. Sofreu.
Ela estava sonhando. Confirmado.

A mãe lhe dá um beijo e pergunta como fora no outro mundo.
Silêncio.

Outro mundo?

A mãe sorri, achava que era uma piada da filha.
Não era.

Luiza estava perdida.
Afinal de contas, o que estava acontecendo?

Lembrou do Pica Pau, aquele do desenho.
Em um episódio, ele sofria com fome, não podia sair, nevava.
Por que diabos ela estava lembrando do pica-pau?
Um dia, Pica Pau vê uma mesa farta a sua frente.
Se belisca.
Acorda.
A mesa se foi.

É isso.
Se belisca.
Dói.
Então…
Então não estava sonhando.

Mas o que era aquilo?
Estivera sonhando a vida que achava estar vivendo?
A mãe lhe pergunta se está tudo bem?
Se não estava exagerando na dose.

Dose?

Será que bebia muito? Ela pensa.
Um som rompe a imersão de seus pensamentos.

Não conhecia o som.
A mãe começa a falar sozinha.

Luiz observa.

Novo barulho, esse mais próximo.
A mãe pergunta se ela não vai responder.
Estranha.

O que está acontecendo?
Suas mãos agarram seus próprios cabelos como se a dor da puxada fosse lhe trazer as informações que o cérebro negava.
Nada.

A mãe olha com uma cara de preocupação.
Tudo bem? Ela pergunta.
Luiza não responde.
Não, não estava tudo bem. Mas a mãe estava ali, viva, então, sim, estava tudo bem.
Confusão.

Qual o próximo passo.
Abre a boca.
Fala “Te amo”.

A mãe ri.
Está ficando muito tempo no outro mundo, retruca.

“Outro mundo?”
Que porra de outro mundo é esse?

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