Viva a democracia, desde que ela tenha tudo que eu quero!

O Brasil é uma jovem democracia e já sabemos disso. Não sabemos muito bem usufruir deste “direito” que há muito não estava em nossas mãos. Votamos em pessoas erradas, usamos as redes sociais para caluniar ou pior, para criticar aqueles que tem uma opinião diversa da nossa.

Os exemplos são abundantes, hoje mesmo, enquanto escrevo este texto leio que o Ministério Público Federal quer que o Twitter cancele contas que avisam sobre blitz da lei seca. Ué?! Não vivemos em uma democracia? Aí você vai argumentar, mas é para um bem maior. É para não deixar que bêbados matem pessoas. Ok, então vamos combinar uma regra? Há liberdade de expressão desde que ela não sirva para avisar bêbados.

Outro exemplo, de hoje também: uma equipe da Rede Globo é expulsa de uma manifestação da PM do Rio de Janeiro porque divulgou conversas do líder do movimento combinando atitudes marginais o que gerou em seguida a prisão do mesmo. Então vamos para mais uma regra? No Brasil há democracia desde que você não exponha líderes de movimentos, mesmo que eles estejam exercendo de maneira calhorda o que lhe foi confiado.

Vamos voltar um pouco no passado com dois exemplos? Marcha da maconha. Tema espinhoso e que todos os anos gera a mesma repercussão. Gente querendo proibir, gente querendo liberar. Maconha faz, maconha é porta de entrada para outras drogas então você não pode, em um país democrático, defender a sua legalização. Que tal mais um adendo à regra ? No Brasil, há democracia desde que você não queira ir às ruas defender qualquer coisa que fira o politicamente correto.

tela_comunicado censura Esmael Moraes
tela_comunicado censura Esmael Moraes

Mais um exemplo? Campanha de 2010, o então candidato, pede (e consegue) que o blog do comentarista Esmael Moraes seja retirado do ar por supostamente conter informações erradas e tendenciosas sobre o candidato. O blog ficou fora do ar alguns dias. Então, assim: mais uma regrinha: No Brasil há democracia desde que você não fale ou escreva nada contrário ao chamado “candidato do choque de gestão”.

A democracia devia ser plena no Brasil. Estes e muitos outros exemplos são vistos todos os dias e por diferentes segmentos. Opiniões contrárias geram acusações, mágoas e processos que somente enfraquecem o direito de plena liberdade. O fim da lei da imprensa, ao contrário do que se propagava tratou-se de um retrocesso para as instituições. Na minha modestíssima opinião, o fórum adequado para resolver qualquer divergência de pensamento é a justiça, tudo o mais nada é além do que a chamada “democracia de porão”.

Conversas de ônibus…

Andar de ônibus é sempre uma aventura diferente, seja pela maneira com os motoristas conduzem o veículo, seja pela companhia que se encontra ou ainda pelo que se ouve em alguns minutos na lotação urbana.

Na faculdade, tive a graça de receber uma premiação por um texto que fiz sobre telefones sem fio e telefones celulares, no texto eu argumentava que o telefone sem fio trouxe liberdade para as pessoas, ao passo que telefones celulares trouxeram prisão. Hoje, depois de anos de evolução dos telefones celulares vejo que a prisão também deixou os ônibus mais chatos.

Graças as tecnologias com rádio no celular, internet no celular, televisão no celular e até a já ultrapassada mensagem de texto no celular, os papos no ônibus não são mais os mesmos. A maioria das pessoas se esconde “atrás” de seus fones de ouvido, e curtem a si mesmo durante todo o trajeto. Pena, não dividem com ninguém histórias pitorescas.

No ônibus de hoje, ouvi apenas dois casos interessantes: uma senhora ruiva que aparentava uns 50 anos comentava com o motorista que ela não poderia mais pegar o ônibus naquele horário porque o filho arrumara emprego, e a creche só poderia pegar o sobrinho dela  a partir das 07h30, então, como ela tinha um horário mais flexível iria se sacrificar pelo filho. Entre um lamento e outro, comentou como a mãe da criança era uma mulher sem juízo, que viajava muito e pouco via a criança.

Na outra ponta do ônibus um senhor, segurando uma sacola de supermercado recheada de exames, contava a outro senhor, igualmente interessado na história, como era um homem sofredor. Doía suas costas, suas pernas, sua cabeça, tinha um problema de gastrite, não podia andar muito  porque as câimbras já lhe atacavam e agora deu de esquecer das coisas. Será que ele lembrava onde estava indo? Sim, era para outro médico ver os seus exames. Clássico.

Já chegando ao final de minha “viagem” ouvi o começo de uma história, mas me parte o coração contar-lhes que não sei o final. Dava conta de um jovem que devia ter pouco mais de 20 anos falando com sua mãe. Dizia ele que em seu novo trabalho havia uma moça muito bonita que queria porque queria levá-lo a igreja para falar com o pastor, pois, segundo ela, o rapaz estava com o demônio no corpo… sim, não sei o resto da história.

Não fiquem bravos, há muitas outras histórias pitorescas para dividir, e fica uma dica, já que seria audacioso demais chamá-lo de conselho. Deixe seu carro em casa ao menos uma vez por semana e vá de ônibus e veja seu caminho por outro ângulo, garanto que você vai se surpreender.

Polêmico? Sim, mas vamos lá!

Você pode ou não falar tudo aquilo que pensa? Em teoria, pode. Mas não deve! Em Curitiba, por exemplo, houve pelo terceiro ano consecutivo a proibição da marcha da maconha, os idealizadores da marcha agora vão promover a marcha da Liberdade de Expressão. Tema espinhoso, mas vamos lá!

Drogas, tem gente que usa, tem gente que não usa. Tem gente que vicia, tem gente que não vicia. Recentemente o ex-presidente Fernando Henrique afirmou que era a favor da liberação. Liberdade de expressão? Sim. Proibir a marcha é contra a liberdade de expressão? Acho que sim também, mas vamos lá!

Drogas: somente as pessoas que já tiveram em suas famílias pessoas dependentes químicas podem opinar sobre o tema. Famílias e mais famílias destruídas pelo vício. Famílias que viram a maconha servir apenas de porta de entrada para o crack, cocaína e daí para crimes é um pulo. Qualquer tipo de propaganda das drogas deveria ser proibida, sim também, mas vamos lá!

Dizia minha mãe que de boas intenções o inferno pavimentou suas ruas. Não seria a proibição dessa marcha em nome de um bem maior um pouco dessa pavimentação? Ao abrir a exceção de uma marcha contra a maconha não estaríamos abrindo mão de outras “opiniões”? Hoje não se pode falar sobre a maconha, amanhã não se poderá protestar a favor ou contra a pena de morte, no outro dia quem sabe se proibirão as manifestações contra a corrupção.

Entendo como justa a preocupação da sociedade contra o uso indiscriminado das drogas. Entendo e concordo com o potencial destrutivo delas. Mas acredito ainda mais na justiça social e na educação das escolas e em casa como forma de combater as drogas do que formar simplistas de censura que incitam o proibido e afasta da mesa um debate sério sobre este e outros temas.