O que é interesse público no jornalismo?

Me formei em jornalismo em 2002, na época a profissão já cambaleava entre jornalões chapa-brancas e o início da concorrência com blogs, na gringa, os grandes portais começam a ganhar a guerra. Jornalismo para mim é sagrado, ele, quando feito de maneira profissional molda a sociedade para o seu melhor. Cobra de quem é preciso cobrar, aponta erros e desvios, volta sua metralhadora de informações para todos aqueles que tentam esconder os fatos.

Basicamente jornalismo de verdade é fazer perguntas que os outros não querem que sejam feitas.
Jornalista é aquele que sendo comunista aponta todos os defeitos do comunismo, sendo capitalismo mostra o seu pior lado.

Jornalista gosta de história, de verdade.

Todos as grandes mudanças do Brasil vieram por meio da imprensa, às vezes atendendo interesses, outras apenas em busca do “furo”, mas mudava, incomodava.

Um dia, chegou Gilmar Mendes e seus pares do STF, atendendo a uma solicitação do patronato e acabou com a exigência do diploma para o exercício da profissão, nesse dia, o jornalismo em entrou em estado de coma e de lá não deve sair. Hoje, 2023, vivendo do passado, alguns até tentam voltar com essa exigência, sou contra, não faz mais sentido, o tempo atropelou o caso. Todos são jornalistas atualmente, sem que ninguém tenha responsabilidade sobre isso.

Ontem, 13 de abril de 2023, me deparei com uma postagem de um conhecido influenciador esportivo do Paraná sobre como o filho de um goleiro condenado pelo assassinato de uma modelo, que leva o nome do pai e da mãe, estava jogando como goleiro do Athlético Paranaense. Batizando o caso como “rolê aleatório”, o influenciador dava nome, sobrenome, posição e, foto. Quando cobrado sobre o motivo daquela divulgação se defendeu dizendo que “logo todos saberiam…”.

Infelizmente ele estava certo, ainda que tenha sido o motivador daquilo. No dia seguinte, os veículos de imprensa começaram a dar a notícia como se aquilo fora de fato notícia. Não é. É fofoca, é lidar com a curiosidade mórbida do ser humano que se refastela na miséria humana diariamente. Divulgar aquele fato é colocar mais um peso nas costas de um moleque de 13 anos que cresceu convivendo com fantasmas que ele não pediu, que viu seu rosto pixelado diversas vezes na tv, toda vez que alguém lembrava de como a mãe fora morta pelo pai.

Ele não tem chance de errar. Ele não tem nem mesmo o direito do anonimato, leva o nome do pai e da mãe, está no futebol na mesma posição do pai.  Assim como o pêndulo da ironia e do paradoxo está no debate público sendo julgado por algo que sua idade não deveria enfrentar.

Ao contrário dos moleques com quem convive, se errar… não puxou o pai. Se for bom… puxou o pai. Se um dia, arrumar briga em campo, algo extremamente comum na sua idade, pode ter puxado o pai. Será que as pessoas que divulgaram isso, ainda que “desejando o melhor” se reponsabilizarão pelo que possa acontecer com o menino e seu psicológico?

Triste o jornalismo que covalesce e logo morrerá de vez.
Não é um lamento, é uma certeza, não há mais o que fazer.