Julius Stranger: o dono do mundo – 2t Ep4

O plano era simples:

Tentaria enviar para si mesmo no passado um pedido: guardar um dólar em um cofre de um banco. Simplesmente isso. Em suas contas, isso não mudaria nada, mas, ele sabia, algo seria mudada, ele só ainda não detectara essa mudança, afinal, esse cofre deixaria de pertencer a alguém, deixaria de guardar algo.

Havia também o risco de sua versão no passado simplesmente pensar estar louco, então, uma linha de pensamentos e ideias significativas iria se perder, então o reflexo temporal transverso poderia se apresentar de maneiras que não poderiam ser previstas. Simplesmente tudo, a partir do momento do envio da mensagem poderia deixar de existir, sumir, melhorar ou piorar.

Era arriscado, talvez arriscado demais, mas também era, não fazer nada. Não tinha mais dúvidas. A simplicidade do plano era sua fortaleza, conhecia a si mesmo razoavelmente bem para saber que a chance de enlouquecer era pequena.

Começaram os preparativos.

Funcionava de maneira pouco ortodoxa, afinal, iria mandar a mensagem para o universo, qualquer pessoa com a mesma frequencia poderia acessar a mensagem, por isso, a ideia do dólar, ela basicamente não conseguiria mudanças drásticas, ainda que outras fontes pudessem captar a mensagem. Já tinha descoberto há muito tempo que o universo e seus acontecimentos de tempo e espaço estavam interligados. Basicamente, tudo que já aconteceu, ou que ainda acontecerá são vibrações constantes que, decodificadas da maneira correta se transformariam em imagens entendíveis aos olhos humanos.

Entendendo que o tempo não obedecia à ordem cronológica preconizada pelo humano, quando a mensagem do dólar fosse jogada para o universo, se misturaria com as outras infinitas, então, o plano consistia em enviar e deixar que ela fique disponível sempre, o Julius de todos os passados, assim como o do presente, e também do futuro veriam e poderiam codificar a mensagem, mas somente um deles tomaria uma atitude, o primeiro a receber, os demais já teriam a lembrança desse acontecimento, por isso, descartariam a execução da tarefa.

Passava pouco da meia-noite.
O silêncio estava quebrado por um som de turbina com um tilintar estranho.
Uma chuva de dólares começara a cair no planeta Terra.

Os locais que já tinham a luz de sol do dia seguinte não conseguiam entender o que era aquilo.
A polícia tentou isolar áreas ou evitar que se pegassem os tais dólares, mas viu ser inútil.

Brigas aqui e acolá se somavam.
A maioria dormia.
Julius, dormia, levaria ainda 7 horas para ele despertar.
Seu pai ligaria.

Todos se perguntavam o que estava acontecendo.
Seria algum bilionário excêntrico.

Lentamente, o mundo entendia que não era um local específico que havia recebido a tal chuva de dólares.
Todos os lugares, mares, ilhas, casas, campos, não importava.

Havia dólar para quem quisesse catar.
A “chuva” durou pouco mais de um minuto.
Foi intensa e impossível de calcular.

Algo novo acontecera.
Algo que não pode ser previsto, nem mesmo por Julius Stranger.
Se ao menos ele tivesse olhado com mais atenção ao ano seguinte…

Continua…

Primeira Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2

Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6

Segunda Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3

Julius Stranger: o dono do mundo – 2t Ep3

O mundo não é coisa fácil de ser moldada, é preciso levar tantas variantes em conta, que as próprias variantes mudam no caminho fazendo com que não haja contas certas.

Um dia, quando Julius era apenas um menino de 8 anos pediu ao seu pai uma bicicleta de presente, era algo meio antiquado até mesmo para o seu tempo, portanto, era caro, o pai lhe prometera, mas,  com uma condição:

– Manter o quarto arrumado, e o quintal limpo.

Durante 5 meses tudo foi com o pensado, Julius tinha cuidado, algumas vezes, até mesmo evitava brincar para não bagunçar nada, porém James, seu primo não tinha nenhum compromisso firmado, transformou o quarto numa filial do inferno, seu pai viu, nada falou, mas no momento oportuno, cobrou o preço. Julius não ganhou a bicicleta, o primo negou ser o responsável pela bagunça, então, aprendeu uma lição:

Não confie em ninguém.

O tempo passara, já se passavam 8 meses do caos e da prisão de Julius e sua cabeça, agora motivada pela mudança se perguntava o que seria do futuro. Não poderia, nem queria, viver para sempre. Fracassara em inventar uma máquina do tempo para dizer a si mesmo que não fizesse nada disso, também havia a questão inexplorada no reflexo temporal transverso. Um termo que ele mesmo inventou para exemplificar coisas que poderiam mudar pelo simples fato de serem tentadas.

Podia morrer. Tic Tac. O tempo voa.

Julius, sabia exatamente quando morreria, isso se nada mudasse, ou melhor, se ele não mudasse nada. Então, estava razoavelmente confortável com os 18 anos que lhe restavam. Nunca teve coragem de ver o que lhe acometeria, somente sabia da data por aproximação, por não encontrar mais a si mesmo em uma faixa de tempo.

Ainda que arriscasse diminuir esses 18 anos, Julius precisa descobrir o que fazer com o poder que tinha nas mãos.

Não poderia deixar uma inteligência artificial no comando, já tinha visto esse futuro e ele não era nada bom para a humanidade que basicamente viraria escrava de si mesmo. Lembrava também dos livros de Asimov e tinha medo. Ainda pior que essa possibilidade, era entregar o “poder” a algum governo, já tinha visto esse futuro também simulando diversos governos no poder, todos se corrompiam ou cometiam erros tolos que os faziam perder o poder.

Precisava pensar, Tic Tac. O tempo voa.

O carro voava sobre nuvens, e de repente uma chuva de post its caia sem parar, neles, apenas uma pergunta:
Por que não me avisou? Tentava responder, mas já não estava no carro, agora lia um antigo jornal com um recado de alguém procurando alguém, ficava exasperado, o grito não saía.

Acordou.

Tinha a resposta para a sua questão.
Viajar no tempo já sabia, não era possível.
Mas, e se o reflexo temporal transverso pudesse viajar. Não ele. Mas um pensamento, não uma pessoa, mas uma mensagem?

A questão era arriscada, afinal, poderia tentar mandar uma mensagem para o futuro e ok, isso não traria consequências já que poderia mudar uma coisa aqui e outra ali e “arrumar” a questão, mas, caso tivesse sucesso, o que seria do futuro? E se a mensagem chegasse errada? O que isso significaria. Precisava testar a hipótese, poderia ser uma saída.

Sentiu-se naquele momento o Frodo em seu momento de glória. Conseguiria abrir mão do anel?

Continua…

Primeira Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2

Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6

Segunda Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2

Julius Stranger: o dono do mundo – 2t Ep1

Julia, uma carioca da Baixada Fluminense tentou falar com o filho pelo telefone e não conseguiu, o telefone parecia mudo. Tentou uma mensagem de texto, mesmo resultado, apelou para a internet, nada! Estava sem comunicação.

Matteo era o responsável pelo sistema de sinais de trânsito de Berna, na Suiça, sua manhã estava um inferno como há muito não vivia, os sistemas simplesmente pararam, era necessário o envio de guardas de trânsito para organizar a cidade, mas não havia tanta gente assim disponível, com a baixíssima criminalidade e a confiabilidade do sistema eletrônico, nunca fora preciso. O caos estava instalado.

Ainda que considerasse Julius um criminoso, os equipamentos disponibilizados por ele eram bons demais para serem ignorados, e a NASA era uma das muitas agências do governo que dependiam deles, mas, naquela manhã, eles não funcionaram, anos de pesquisa estavam simplesmente inacessíveis.

Assim o mundo todo parou por absoluto. Até mesmo China e Coréia do Norte que haviam propagandeado que não utilizariam sistemas de um “criminoso” estavam paradas mostrando assim sua mentira e hipocrisia.

Nada funcionava e as consequências foram imediatas. Como nos bons anos do início do século XXI o povo foi às ruas protestar contra a situação. Protestavam contra Julius, contra os governos e as instituições. Queriam de volta as facilidades a que estavam acostumados. Lojas eram depredadas, violência sem aparato policial para conter a fúria imprudente dos manifestantes.

Feridos começam a chegar nos hospitais, mas não há médicos, não há equipamentos funcionando, não enfermeiros, apenas uma estrutura física lembrando as pessoas de quando ainda ficavam doentes e não havia cura ou esperança. O mundo estava pronto para sucumbir, em apenas uma manhã retornou ao século XXIII, mas dessa vez com requintes de crueldade: ninguém sabia como fazer nada, como haviam se acomodado, não tinham conhecimento para qualquer coisa. Não sabiam sequer fazer uma fogueira para preparar um alimento, os fogões elétricos não funcionavam, a própria luz os abandonou.

A ONU ou a OTAN procuravam Julius desesperadamente, incentivaram os países a retirarem quaisquer tipos de sanções ao homem, ele deveria deixar de ser alguém procurado, as coisas estavam piorando rapidamente, a maioria deles aceitou a sugestão e fizeram convites públicos para que Stranger fosse até seu território, até mesmo os Estados Unidos que, em um jogo de cena, omitiu de seus parceiros que havia prendido Julius, que o tinha sob custódia e que pretendia segurá-lo quanto tempo fosse possível. Oficialmente ele seguia desaparecido, era agora alguém preso fora dos registros.

As acusações contra Stranger variavam de quem perguntasse, passava por roubo, participação em organizações terroristas, crime contra o sistema financeiro, enfim… ele praticamente zerava o sistema criminal dos Estados Unidos. Em seu primeiro depoimento, abriu mão de advogados e apenas repetia a pergunta:

– Que mal eu fiz?

A pergunta trouxe estranheza, pois ela também parecia uma interjeição.

A maioria dos investigadores ali presentes morava em uma das casas de Julius, utilizava o celular e a rede de internet de Julius e tinham uma certeza, aquele homem na frente deles parecia apenas mais um homem, não o maior de todos, não o dono do mundo.

A porta se abriu de repente se abriu e o próprio presidente dos Estados Unidos, junto a seus generais mais próximos, entrou na sala de depoimento. Sem rodeios o presidente exigiu:

– Traga de volta os serviços! Agora! Já!

Julius olhou para ele e novamente indagou:

– Que mal eu fiz!?

Continua…

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Primeira Temporada:
Capítulo 1
Capítulo 2

Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6

Julius Stranger: o dono do mundo – parte 4

Aquela mina tinha tanto ouro que era difícil acreditar que ninguém até então havia se dado conta da existência dela. Julius, havia adquirido a propriedade por um preço ínfimo, ninguém antes dava qualquer tipo de atenção para aquele deserto abandonado. Ninguém conseguia acreditar, poucos dólares haviam se transformado em uma das maiores fortunas já vistas.

Julius não era o mesmo homem que há pouco mais de 2 anos perdera o amor, que na verdade, nunca teve. Karen, ainda era lembrada, é verdade, mas como um sopro, uma lembrança que embala pensamentos em uma tarde chuvosa.

Mas, como Julius já antecipara, a “sorte” de encontrar ouro em lugar tão inóspito traria questionamentos, principalmente governamentais, trouxeram!

Em uma tarde de domingo diversos carros pretos, 4 no total, pararam na escada da nova mansão de Strange, vieram buscá-lo para depoimento em uma agência obscura. Julius já estava na escada com malas prontas, ao ver os agentes, simplesmente disse:

– Estou pronto.

Surpresos, confusos, nada disseram, ele entrou no carro e foi conduzido para um prédio no centro da da cidade, sem maiores explicações.

A sala em que foi colocada era ampla, fria, porém muito bem decorada com réplicas de quadros famosos, uma enorme mesa de escritório e algumas poltronas confortáveis. Julius sentou, e aguardou, 14 minutos depois, uma homem de meia idade, calvo, vestindo um terno barato e uma expressão séria foi direto ao se dirigir, ao que agora parecia, um investigado:

– Como você  sabia da localização de todo aquele ouro?
– Eu não sabia. Comprei o terreno para construir uma casa e um laboratório fora da cidade, como você sabe, eu sou um cientista. Precisava de espaço. Foi sorte.
– O senhor espera mesmo que acreditemos que encontrar todo aquele ouro, em um lugar isolado, longe da sua cidade natal, foi apenas um golpe de sorte?
– Eu não espero nada, essa é a verdade.
– Ok, vamos imaginar que isso seja a verdade. Como o senhor ficou sabendo desse rancho?
– Simplesmente entrei na internet e pesquisei um local com as características que queria, conforme já falei com o senhor. Sei que o senhor já invadiu meu computador e viu minhas buscas, sabe que isso é verdade.
– Nós não invadimos seu computador, não poderíamos fazer isso sem uma autorização.
– Claro, papai noel me contou isso ontem.
– Não estou gostando do seu tom. O senhor está aqui apenas para averiguação, ainda não é investigado por nada.
– Então posso ir embora?
– Assim que eu terminar minhas perguntas.
– Mas eu não devia ter direito a um advogado?
– Você acha que precisa de um?
– Sei que não.
– Vamos fazer assim, iremos retomar nossa conversa amanhã. Que tal eu lhe oferecer uma hospedagem aqui nas nossas instalações?
– Certo, já estou com as malas prontas.
– Mas como o senhor sabia?
– Foi um palpite.
– Mais um golpe de sorte?
– Pode-se dizer que sim.

Na manhã seguinte, ainda que tivesse uma noite agradável, um jantar refinado, Julius arrumou as malas e iria embora. Mais uma vez foi até a mesma  para “conversar” com a mesma pessoa.

As perguntas se repetiram, a insistência com o golpe de sorte, mas nada além disso, o agente sabia que não poderia manter Julius ali por mais tempo. Afinal, ter “sorte” não é contra a lei.

Julius foi para a sua nova casa, sentou-se em frente da sua tv, antiga, que não combinava com o ambiente, parecia mais uma peça retrô do que um equipamento que de fato funcionasse. Julius pegou uma espécie de controle remoto, digitou alguns números e ali, naquela tela, o agente apareceu, vestindo o mesmo terno barato, e com a mesma calvície brilhosa. Julius assistiu à cena e ficou tranquilo. Teria alguma paz.

Continua…